“Uma coisa que a gente nota é o descaso pela permanência do trabalho. Tem uma denúncia nesse sentido num dos livros do André Lotte. "Se perguntarmos a um restaurador quais são as obras que precisam de restauração, mais de restauração, certamente são as obras modernas. È uma coisa que eu sempre falo com meus alunos. É preciso que você faça alguma coisa que seja boa e que ela tenha uma certa permanência. Na própria obra de Van Gogh já tem trabalhos que são difíceis de se manter aparência deles porque ele já não se preocupava tanto com isso. Eu acho que quanto mais você sabe, mais livre você é. Mesmo porque você entra numa fase em que você sabe o que fazer e o que não fazer. O que não fazer sabendo fazer aquilo. Você deixa de fazer por uma necessidade expressiva. Eu ainda vou mais longe: Acho que se você não sabe desenhar você não pensa na forma. Nós tínhamos 900 horas aula de modelo vivo. O curso. E essas 900 horas não eram garantia de que você ia sair um bom desenhista. Eles foram cortando, cortando, cortando, cortando... E hoje são 90 horas obrigatórias. Quer dizer 10%. As pessoas que sabem desenhar, normalmente elas desenham apesar do ensino oficial, vão procurar fora, vão estudar fora, vão procurar um mestre fora para poder aprender, porque lá é meio difícil, meio complicado de aprender. Você vê obras hoje feitas com o intuito de desaparecer mesmo. O sujeito faz uma exposição com uma escultura de gelo e ela derrete durante a exposição. Faz uma cera para derreter se fizer calor, etc. Faz um livro de carne, para apodrecer, etc. Quer dizer, essa idéia de permanência não tem. O artista permanece, mas o ofício de pintor acabou. Eles pintam com qualquer coisa, em cima de qualquer coisa, com qualquer tinta, de qualquer jeito. Mistura com qualquer coisa, umas com as outras, sem saber o resultado final daquilo. Então, ele diz o seguinte: - Isso se deve à morte do ofício do pintor. Permanece o artista, mas não tem mais o técnico, o pintor.”
Bandeira de Mello, anotação do vídeo da exposição “EU EXISTO ASSIM” no Espaço Cultural da Caixa em Curitiba no dia 17 de Junho de 2011.
des, adoro e simpatizo com o Bandeira de Mello no texto acima, sei que fazemos uma arte que é efêmera por natureza, no entanto sinto que o entendimento do tempo da contemporaneidade não me interessa para o meu trabalho. Gosto de continuidade, suor e de técnica. Mesmo fazendo dança que desvanece a cada espetáculo, creio que a questão do tempo que antecede a apresentação é precioso, importante e deve tornar-se claro na obra. Não defendo que basta suar antes do palco, é algo muito além disso. É questão do ciclo do universo, da estação, etc. Isso envolve também a questão do mestre e discípulo. Não estou defendendo o autoritarismo, mas da onde vem, aonde as coisas vão e como elas retornam. Gosto de ter um mestre, vários mestres, divirto-me repassando as coisas; afinal, entendo que somos canais de energia (matéria, emoção, pensamento, afetos, etc) com várias direções e sentido concomitantemente (exemplo: ser mestre e discípulo ao mesmo tempo). Precisamos viver o tempo num entendimento maior, sentir ele, compreender ele; a meu ver, é por meio disso que a obra adquire espírito com densidade. Para isso, creio que não podemos negar a técnica, muito pelo contrário, precisamos valorizá-la, integrar ao todo. Adoro a frase da nossa diretora Cintia Napoli: A técnica existe para anos libertar. Não sou exímio de técnica, mas acreditando nisso, vivo atrás dela. No entanto, esse meu posicionamento não significa que nego a arte conceitual, performance com gelo, arte pop, etc. Muito pelo contrário, adoro a rapidez do mundo contemporâneo, só fico desolado quando os dois lados da moeda são entendidas de formas separadas na conjuntura artística atual. Dissociar os que devem caminhar juntos. Dessa forma não curto a idéia de que a “sacada” é o que importa numa obra. Muitos acham que ela justifica o intervalo curto da gestação. Nesse aspecto, a sacada possui uma relação próxima com o “conceitual demais”. Vejo muita arte conceitual sem densidade. Fui ver algumas obras que estavam no MOM do o 6º Vento Sul – Bienal de Curitiba, vi coisas interessantes, mas na grande maioria falta espírito com densidade. No mesmo dia, fui ver a Coleção Brasiliana Itaú que também está no MOM, fiquei arrepiado, encantado e entusiasmado. Gravuras dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, muitos coloridos manualmente. Expedições holandesas e francesas que fizeram registros da fauna, flora, paisagem, costumes, política, história, mapas, etc. do Brasil. Vejo arte em todos eles, muitos dizem que é mais documental, não importa para mim, gosto da densidade e a clareza daqueles artistas que optaram em ser documentaristas e dedicaram a vida para isso. Prefiro-os a que muita arte contemporânea que fica somente no conceito do seu bel prazer desconectada com o entorno, pois não busca compreender o tempo cósmico. Acredito que o mundo atual precisa voltar a admirar o passado, nossa história, antepassados, técnicas, personagens, etc. Sentir mais a natureza e o tempo que rege o universo. Yiuki
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